Uma cidade engolida pela fumaça.
A rua está vazia, exceto por carros sem motoristas que se incorporam ao concreto.
O sol, que agora arde impiedosamente, da às ruas uma coloração dourada.
O ar, denso e seco, cheira a desespero.
Os prédios criaram espécies de raízes que rompem as calçadas.
Estática. O único ruído daqui são meus sapatos colidindo ora com o duro asfalto, ora com as folhas secas das árvores mortas.
Minhas pernas doem porque não foram feitas para pensar.
Parece que engoli um copo de napalm. Cada célula do meu corpo grita, derrotada.
Estou fraco.
Meus membros estão cada vez mais fantasmas e meus órgãos aparecem expostos em uma bancada toda noite quando fecho os olhos.
Tem coisas que nunca cicatrizam. Elas só sangram tão continuamente que você se esquece e quando percebe está seco.
Fraco.
Parece que vou carregar essa chaga pra sempre. Contida ora em um pensamento, ora em um sentido.
Queria te ver.
Acho que é só fechar os olhos.
Campo tomado pela fumaça, o cinza engole aos poucos o verde.
Galinhas sem cabeça desfilam arrogantes desafiando os acorrentados cães.
O relógio parece bater sempre a mesma batida de sempre. Ecoando pelos vales mortos.
Gemidos contidos em meio à neblina, envoltos pela fumaça.
O cheiro de estagnação grudado em meu corpo se torna cada vez mais enjoativo.
Seringas entupidas temperam a bancada marcada de branco esmagado com sangue.
Um corpo deitado na grama, molhado da chuva e com os músculos contraídos de dor, descansa serenamente por um instante.
20.10.10
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