28.1.11

uma rosa de ilusão

um beijo na face Hades
um beijo com gosto de ópio
um beijo na minha dormência
um beijo no cu da minha mente
um beijo no torpor patético da minha existência
um beijo nessa rosa de ilusão

13.1.11

cold blood

naked boy remember
no magnificent hunger
fly dream come blue

soak evenings
burn drops
have god desire

she whispers a clutch
for soul her love
must not want joy
place a perfume to its
heart

20.10.10

Anuviado

Uma cidade engolida pela fumaça.
A rua está vazia, exceto por carros sem motoristas que se incorporam ao concreto.
O sol, que agora arde impiedosamente, da às ruas uma coloração dourada.
O ar, denso e seco, cheira a desespero.
Os prédios criaram espécies de raízes que rompem as calçadas.
Estática. O único ruído daqui são meus sapatos colidindo ora com o duro asfalto, ora com as folhas secas das árvores mortas.
Minhas pernas doem porque não foram feitas para pensar.
Parece que engoli um copo de napalm. Cada célula do meu corpo grita, derrotada.
Estou fraco.
Meus membros estão cada vez mais fantasmas e meus órgãos aparecem expostos em uma bancada toda noite quando fecho os olhos.
Tem coisas que nunca cicatrizam. Elas só sangram tão continuamente que você se esquece e quando percebe está seco.
Fraco.
Parece que vou carregar essa chaga pra sempre. Contida ora em um pensamento, ora em um sentido.
Queria te ver.
Acho que é só fechar os olhos.
Campo tomado pela fumaça, o cinza engole aos poucos o verde.
Galinhas sem cabeça desfilam arrogantes desafiando os acorrentados cães.
O relógio parece bater sempre a mesma batida de sempre. Ecoando pelos vales mortos.
Gemidos contidos em meio à neblina, envoltos pela fumaça.
O cheiro de estagnação grudado em meu corpo se torna cada vez mais enjoativo.
Seringas entupidas temperam a bancada marcada de branco esmagado com sangue.
Um corpo deitado na grama, molhado da chuva e com os músculos contraídos de dor, descansa serenamente por um instante.

23.9.10

Apagada lembrança

Catastroficamente calado
e silenciosamente detido.
Anulado, fui, sem piedade
e agora estou sem vida.
Quando o verão me atingir,
já decidi, desisti de fugir.
Vou conscientemente permitir
que o calor me incendeie em
memória.

30.8.10

Narrativa da deposição de um não-general

Pela janela o sol ardia, queimava cada centímetro de sua pele que aos poucos ele cobria com seu uniforme. Enquanto se vestia relembrava cada instante da sua tomada do poder, de como o sol ardia naquele dia...
O sol reluzia, na janela formava quase uma grade, aquele quadriculado de luz o ofuscava e aturdia o raciocínio. Estava trancado.
Ele não era o único incomodado com aquele ardor, assim como ele não conseguia abotoar o último botão de sua farda, seus cães de guarda anfetaminados mal conseguiam implicar com os que passavam pelo portão. Estava vulnerável demais.
Seu copo suava sobre a mesa, seu corpo em sua farda. Pressentia o pior, e sabia exatamente o que ia ocorrer, afinal já havia participado desse ato. Com tudo abotoado ele limpava, agora, seu revólver. O que quer que acontecesse ele tinha que estar brilhando como esse maldito sol.
Tudo pronto. Seu uniforme, impecável. Seu revólver reluzia. Seu sorriso, doentio. Mas estava tudo muito quieto.
Eles chegaram.
Disfarçados com seus jalecos e fuzis, malditos revolucionários. Era o fim, fora derrubado. Invadiram seu gabinete e em vantajoso número o inutilizaram. Foi conduzido de farda, revólver reluzente e inofensivo. Estava conformado.
O jogaram numa sala branca, foi esticado e preso numa mesa. Era a cerimônia de posse, no seu caso deposição.
Sua cabeça queimava como se uma corrente de alta voltagem fluísse por ela.

26.8.10

Inópia

Acordei hoje pensando em você.
O sol da manhã erguia o ardor
da sua memória.
Uma vontade gelada arrepia
cada espaço vazio que você
deixou em mim.
E aos poucos meu corpo formiga
querendo te ver, os ossos
coçam querendo correr em
sua direção.
Mas travo, estático, assim como
a ânsia na porta da minha garganta.
Não, isso não é amor.
Mas é quase.

Ralo abaixo

O sangue seco na pia
evidencia minha última euforia.
O sangue seco na pia
do nariz, da seringa ou da
minha vida?
Já não sei mais da onde
vem
esse sangue seco na pia.