30.8.10

Narrativa da deposição de um não-general

Pela janela o sol ardia, queimava cada centímetro de sua pele que aos poucos ele cobria com seu uniforme. Enquanto se vestia relembrava cada instante da sua tomada do poder, de como o sol ardia naquele dia...
O sol reluzia, na janela formava quase uma grade, aquele quadriculado de luz o ofuscava e aturdia o raciocínio. Estava trancado.
Ele não era o único incomodado com aquele ardor, assim como ele não conseguia abotoar o último botão de sua farda, seus cães de guarda anfetaminados mal conseguiam implicar com os que passavam pelo portão. Estava vulnerável demais.
Seu copo suava sobre a mesa, seu corpo em sua farda. Pressentia o pior, e sabia exatamente o que ia ocorrer, afinal já havia participado desse ato. Com tudo abotoado ele limpava, agora, seu revólver. O que quer que acontecesse ele tinha que estar brilhando como esse maldito sol.
Tudo pronto. Seu uniforme, impecável. Seu revólver reluzia. Seu sorriso, doentio. Mas estava tudo muito quieto.
Eles chegaram.
Disfarçados com seus jalecos e fuzis, malditos revolucionários. Era o fim, fora derrubado. Invadiram seu gabinete e em vantajoso número o inutilizaram. Foi conduzido de farda, revólver reluzente e inofensivo. Estava conformado.
O jogaram numa sala branca, foi esticado e preso numa mesa. Era a cerimônia de posse, no seu caso deposição.
Sua cabeça queimava como se uma corrente de alta voltagem fluísse por ela.

26.8.10

Inópia

Acordei hoje pensando em você.
O sol da manhã erguia o ardor
da sua memória.
Uma vontade gelada arrepia
cada espaço vazio que você
deixou em mim.
E aos poucos meu corpo formiga
querendo te ver, os ossos
coçam querendo correr em
sua direção.
Mas travo, estático, assim como
a ânsia na porta da minha garganta.
Não, isso não é amor.
Mas é quase.

Ralo abaixo

O sangue seco na pia
evidencia minha última euforia.
O sangue seco na pia
do nariz, da seringa ou da
minha vida?
Já não sei mais da onde
vem
esse sangue seco na pia.

15.8.10

Vivo

Viver
é como não ter mais pra onde ir
mas ter cheirado tanto que você
não pode parar de andar.
Daí de repente sua respiração pesa
e você começa a ficar cansado,
deita na primeira chance que
aparece, mas dormir...
E quando finalmente você
pega no sono, vai acordar
exausto, elétrico e assustado
porque afinal isso é que é
viver.

9.8.10

O silêncio

O silêncio é tão bom,
por que as pessoas arruinam
ele falando quando não
têm o que falar?
Por que elas falam por
falar? Isso me aterroriza.
Você vai me achar con-
traditório por eu estar
escrevendo esse texto,
mas ele é extremamente
necessário nesse momento.
Sem ele já teria
pulado pela janela.
Tudo porque eu
não consigo mais falar sem
ter o que dizer, não
posso mais falar por
falar.
Eu preciso, agora, do
silêncio.

5.8.10

Borralho

Deitado na cama, eu me encontrava entupido com subterfúgios. Sonhava.
A luminosidade era baixa, vinha só do computador que continuava ligado enquanto eu entrava em stand-by.
Imaginava estar sozinho, como nas outras noites... Minha mente distante e a música reverberando suavemente. Mas desta vez meu vizinho, amigo de longa data, me seguira e agora se escondia no banheiro. Observava-me atentamente, contando cada respiração que eu dava. Era demasiadamente preocupado.
Flashes se intercalavam em minha mente, conscientemente inconsciente. Não o notara.
Ele começara a se agitar, precisava fumar um cigarro. Mas seria descoberto, tudo iria ralo abaixo... Não...
A música fluía junto com o bem estar e a falta de preocupações que me fugiriam no dia seguinte.
Abruptamente minha porta foi aberta, Tomas entrou e com seu triste e sério olhar de remoída certeza, despejou um líquido sobre meu corpo. Meu vizinho ficou muito aflito, mas decidiu não se denunciar. Precisava ficar incógnito.
Tomas acendeu um fósforo, esperou um momento observando a chama, quase como se estivesse esperando o carvão estalar.
Emiti um grunhido em meio ao meu delírio.
O fósforo incendiou meu corpo que queimava através do reflexo dos olhos aguados de meu vizinho.

1.8.10

Fusca

Por onde eu
passo vejo um
fusca, tem uns
acabados, uns
inteiros, tem os
que andam e tem
os que encalham....
Me considero um fusca,
já to todo batido e
ralado, mas ainda
ando.
Pior ser daqueles
inteiros que não
saem da garagem.
Não nasci para ser
colecionado, não.

Uma noite muito longe de berlin.

Quando o dono do
bar te expulsa
por não saber
o que é bolero
é bom se preocupar.
Chame seus mestres.
Tome uma, duas ou
dez.
Quando o seu chapéu
não serve no seu ego
desista.
Mas toque, toque o
bolero, de ravel ou
qualquer um
que o garanta a
dose da noite, um
tiro qualquer.
Ontem meu dia
foi parado, hoje agita-
damente estático.
Mais uma linha e
uma rabeca gritando
em vão.
Espero que você escute
o ricardo do inferno
outra vez, por que
hoje o dia será
memorável de se
esquecer.