Mas sem fazer absolutamente nada para que isso aconteça.
Outra noite, ansiosa por lágrimas,
Mas estas já não correm de minha seca face.
Outra noite, como todas as outras,
Só mais um reflexo perverso
Do que foi o dia.
10.4.09
E agora? Essa era a única coisa que se passava por minha mente naquele momento. E agora o que eu faço, tenho como afundar ainda mais? Minhas noites todas se consumiam em torno daquilo, essa mesma questão pairando sobre minha mente, enquanto meus olhos sem vida encaravam um copo meio vazio de alguma bebida barata.
Desde que ela tinha viajado as coisas só se tornavam cada dia mais insuportáveis. Conforme os dias se passavam eu me sentia cada vez mais distante e mais apaixonado por ela, que maldito estorvo me foi essa paixão.
Além dessa situação toda, eu consegui fazer com que todos a minha volta, as pessoas que poderiam efetivamente me ajudar, se afastarem um por um. Isso tudo para no fim eu acabar sozinho, amargurado, olhando para um copo meio vazio e sem minhas pílulas.
Depois de horas nesse ritual masoquista, decidi sair pra rua e quem sabe pensar em outra coisa que não fosse ela.
Uma vez na rua deixei que minhas pernas me guiassem, pois quando não se tem perspectiva de um futuro você acaba não ligando onde suas pernas vão acabar te levando, assim todas as vezes que saio na rua ando sem pensar até que meu corpo fique exausto, o que não demora muito para acontecer devido a minha dieta de comprimidos e álcool.
Acabei minha caminhada próximo a um bar de toldo amarelo, numa rua bem movimentada, a princípio o bar não me trouxe nenhuma lembrança, então só sentei no balcão e pedi algo para beber enquanto retomava meu fôlego.
Meio copo de tempo depois, comecei a me focar na conversa das outras pessoas do bar, hábito que mantive desde a minha juventude, na mesma época em que ela foi viajar.
Um pouco de uma conversa aqui, outra ali, até um bêbado seletivo que pedia insistentemente uma maldita dose de vodka, implorando pro garçom, dizendo ser sua única dose do dia, para que ele caprichasse. Mas de qualquer modo nenhuma das conversas me acrescentou algo, na verdade nunca consegui prestar atenção por muito tempo nelas, pulava de uma para outra muito rapidamente, ou porque perdia o interesse ou porque me irritada com seus respectivos protagonistas.
Depois de um tempo, já no fim do segundo ou terceiro copo, aquele bar começou a me dar nos nervos, as grades nas janelas, a escada estreita que levava em direção ao banheiro, tudo lá passou a transmitir uma sensação de desconforto e eu resolvi ir embora.
Transtornado e bêbado segui de volta para minha casa, olhei quanto dinheiro ainda me restava e descobri que na pressa de escapar daquele bar havia me esquecido de pegar o troco, mas foda-se eu nem ligava pra aquele dinheiro só queria mesmo era me trancar em casa, tomar algo bem forte e com sorte escrever algo, aliás atividade que parecia ter desaparecido da minha rotina.
Chegando em casa botei na cabeça que tinha que escrever sobre aquela maldita tarde, me servi de alguma bebida que sumiu em poucos minutos, maldita ansiedade. Com o papel em branco na minha frente, comecei a pensar naquele bar e no desconforto que senti, será que deixei de notar algo, por que me sentira tão mal assim de repente? Depois de algum tempo martelando isso na minha cabeça descobri o motivo.
Era o bar dela. Sim, aquele toldo amarelo, a escada estreita pro banheiro, as grades. Quantas bebedeiras, quantas vezes não passei naquele bar só olhando feito um imbecil pra ela, mas nunca, nunca mesmo consegui falar com ela sobre isso.
Eu podia dizer que isso tudo não passou de uma maldita coincidência mas eu saberia que é mentira e eu acho que você que está lendo , se é que alguém vai chegar a ler esta bosta, também saberia. Nem minhas malditas pernas aliviam a pressão da minha cabeça, mas amanhã é um outro dia e eu ainda tenho uma noite de insônia me esperando...
Mais um dia, mais uma chaga. A cada pensamento lembro dela, a cada pensamento uma agulha me perfura a pele. Queria ter sido só mais um na massa, só mais um comum. Só que agora a mesma que consola e faz-me esquecê-la, incentiva e me reaviva a memória.
Estranho, um casal que ama pessoas diferentes, ambos sabem disso, e mesmo assim se apresentam como casal na frente dos amados. Dois covardes, na verdade só um, o outro ao menos tentou.
Mas esse um, ah esse um! É um colecionador de chagas, um admirador da dor. Ele se alimenta da miséria e, ocasionalmente, alguns comprimidos.
Quem sabe um dia ele resolva suas questões e, com muita sorte, passe a diante sua coleção... quem sabe!
Tudo depende de L., ele lhe dirá. Mas não confie na escória, ela sempre mente. Tudo só depende dele, L. só determina seu fim, nem isso; na verdade L. não determina nada, ela não tem o que determinar só ele que pode escolher o seu caminho, independente do que L. escolher. Ou ele segue em frente, ou não.
Para seguir em frente, aí os fatores dependem de L., se ela agir como ele quer tudo fica fácil; mas se agir como ele espera, lá se vão muitos comprimidos goela abaixo e está na hora de se recompor.
Para não seguir só resta uma dúvida, que facilmente é decidida, no momento seria um nó muito bem dado.
Mais uma noite lutando contra o meu sono. Mais uma seqüência de horas olhando pro teto, desejando fortemente que meu organismo tire uma folga e pare de funcionar feito uma máquina.
O pior de tudo é que eu até tinha um calmante dentro da gaveta ao meu lado, esperando pacientemente para ser consumido, mas no fundo acho que eu gosto dessa miséria de espírito, no fim das contas é a infelicidade que me mantém de pé.
Um tanto quanto irônico, mas o homem admira a dor, a respeita e chega até mesmo a desejá-la. Isso tudo pelo fato dela ser mais forte que todos nós, por conta dela conseguir nos derrubar numa leve fração de segundo.
Acho que após tentar derrotá-la, e obviamente fracassar, passei a admirá-la ainda mais. Ela resistiu a tudo. Conversas, noites em claro, pensamentos feitos e refeitos, ansiolíticos, anfetaminas, opiáceos, cocaína... tudo.
Se hoje me oferecessem a cura, talvez a recusasse. Ela se incorporou de forma tão intrínseca com meu cotidiano, ficaria maluco sem ela. Me tornei um dependente da dor, ela passou a ser um combustível para minha existência.
E pensar que nós começamos esse namoro, acho que posso denominar nossa relação dessa forma, com o afastamento da pessoa que você tomou o lugar. O posto que você, dor, ocupou estava destinado à outra pessoa, destinado a uma pessoa de verdade.
Apesar de tudo isso, agora nada mais importa, eu conheço a cura e ela prefere homens barbados...
A idéia do ódio, talvez da rejeição
Impelem qualquer avanço, um movimento sequer
M. quer explodir, ele finge não saber porquê
Mas tudo é muito claro em sua mente, talvez seja esse o motivo